Inicia-se a descida e a sensação é a de entrar noutro mundo. No Andanças as cores misturam-se com o cheiro dos bolos e do incenso, os sons americanos ou europeus contrastam com o silêncio dos palcos onde os festivaleiros fazem ioga ou massagens, tanto quanto contrastam os movimentos frenéticos de quem dança o vira com os corpos cansados a repousar, logo ali ao lado, numa cama de rede. O calor aperta e os pontos de água potável – pensados para reduzir o consumo de garrafas de plástico – matam a sede e refrescam a pele queimada pelo sol.
"Aqui é-se feliz", ouve-se constantemente e, se dúvidas houvesse, os sorrisos em rostos novos e velhos bastariam para as dissipar. Percorre-se todo o recinto e lixo no chão é coisa rara, apenas algumas beatas de cigarro – poucas – se descobrem já camufladas pelo pó aqui e ali. Copos de plástico não há e o incentivo ao uso de canecas reutilizáveis é uma das imagens de marca do evento. Os festivaleiros bebem água, cerveja ou sangria e, para dançar ou participar noutras actividades, os "vasilhames" são estrategicamente pendurados com um gancho nas mochilas ou bolsas de cintura, o que por si só faz nascer um novo som... O tilintar das canecas a cada movimento.
À partida pode parecer que sim mas nem só de danças se faz o festival que prima pela defesa do ambiente, tanto assim é que as actividades raramente param. Cinema, improviso, gastronomia, técnicas de relaxamento, visitas guiadas pelo concelho, concertos ou construção de instrumentos musicais são apenas algumas das formas de viver os dias no Andanças. Dias esses que, diz quem por aqui está, passam a voar.
A vinda do festival ecológico para Castelo de Vide
É depois de 15 anos em S. Pedro do Sul que o Andanças chega à Albufeira de Póvoa e Meadas, em Castelo de Vide, local escolhido pela associação PédeXumbo por ser mais central e com grande proximidade a Espanha, o que se desenha numa tentativa de atrair novos públicos.
É certo que "ainda a procissão vai no adro" mas as opiniões têm sido favoráveis à vinda do festival para o Alentejo. Ana Gouveia, 49 anos, conhece o conceito e participa no Andanças há vários anos e, sendo de Beja, vê nesta mudança uma mais-valia. "É mais perto e permite-me aproveitar o dia da viagem, coisa que em S. Pedro do Sul não era possível". Além disso, "acho este sítio muito mais bonito, apesar do pó, e nota-se que a interacção entre festival e a população local está criada e isso é extraordinário", remata Ana enquanto segura – orgulhosa - o espanta-espíritos que acaba de fazer num workshop.
Também Ricardo Martins conhece, aos 27 anos, o Andanças. E a opinião não varia. "Este sítio é espectacular, tem a barragem e uma paisagem linda. Faz é muito calor mas nós habituamo-nos", diz entre risos e mais um trago na cerveja.
Mas não são apenas os visitantes que aplaudem a ideia, os castelo-videnses que têm passado pelo recinto parecem agradavelmente surpreendidos e, apesar de muitos inicialmente terem olhado com alguma desconfiança para o festival, a frase que mais se tem ouvido nas conversas em grupo, junto a palcos e balcões, é "se o Andanças continuar cá, para o ano tiro férias nesta altura".
Para o ano falta tempo e nesta edição há ainda muito para aproveitar. Ao quarto dia, dos 152 bailes e concertos, 123 oficinas de dança e 180 oficinas de aquecimento e relaxamento, já muito aconteceu mas outro tanto está para acontecer.















































Sem comentários:
Enviar um comentário