18 de novembro de 2013

População colabora com a Secção de Arqueologia:
Mais lagariças e sepulturas cavadas na rocha registadas no concelho

João Magusto, Sílvia Ricardo e João Ricardo Pereira.
A secção de Arqueologia da Câmara Municipal de Castelo de Vide reconheceu mais 2 lagariças e 2 sepulturas cavadas na rocha em território abrangido pela freguesia de Santa Maria da Devesa no início deste mês de Novembro. 
Estas estruturas talhadas em afloramentos graníticos estão presentes nos prédios rústicos do Roque Martão e da Maria Triga. Procedeu-se à sua identificação e registo, elevando para 20 o número de lagariças conhecidas no concelho. 
As lagariças graníticas encontram-se distribuídas pelo território de Castelo de Vide. Segundo os dados fornecidos pela secção de arqueologia, são já conhecidas cinco na freguesia de Nossa Senhora da Graça de Póvoa e Meadas; uma em Santiago Maior; seis em São João Baptista e oito em Santa Maria da Devesa. 
As lagaretas – como também são apelidadas – seriam utilizadas para a pisa de uva, devido à simplicidade do corte e, pela proximidade com as sepulturas, pensa-se que terão sido talhadas no início da época medieval. João Magusto, técnico de arqueologia do município, explicou que no entanto “ainda não existe um conhecimento muito apurado sobre este tipo de lagariça, daí que em termos arqueológicos, não se conheça o período exacto da sua origem”. 
Encontrar sepulturas cavadas na rocha é algo “mais comum. Existe mais de uma centena disseminada por todo o território do concelho”, afirmou João Magusto. O técnico de arqueologia destacou ainda o facto de serem facilmente identificáveis para as pessoas menos familiarizadas com as características deste tipo de estrutura antiga, devido à sua tipologia e características antropomórficas. “As lagariças passam mais despercebidas”, explicou, pelo que nem sempre há uma identificação destes vestígios por parte da população. 
O reconhecimento e o registo das estruturas foram realizados pela secção de arqueologia com base no conhecimento que Ana Paula Raposo e José Rui Serra, naturais de Castelo de Vide, tinham da presença destes elementos. Para João Magusto a colaboração com os locais demonstra “um reconhecimento do património histórico do concelho e uma contribuição para um inventário geral das estruturas existentes”. 
Este trabalho de registo das lagariças e sepulturas contou ainda com a colaboração de João Ricardo Pereira e Sílvia Ricardo, licenciada em Arqueologia. © Susana Serra/NCV




Algumas curiosidades

A Secção de Arqueologia da Câmara Municipal de Castelo de Vide deixa-nos as respostas às principais perguntas que possam surgir quando nos deparamos com uma lagariça, uma estrutura rupestre para produção de vinho. 
Como são estes lagares? 
Construídos em afloramentos graníticos (uns rasos e outros possuindo uma altura de 1m do solo) conservaram-se até aos nossos dias atendendo à “base” material. Geralmente possuem uma pia pouco profunda (com forma ovóide, arredondada, quadrada ou rectangular) onde se pisa a uva. O mosto daí resultante era canalizado, por via natural para o orifício onde escorria para um receptáculo mais pequeno e numa cota inferior ou directamente para um vasilhame. 
Como se prensavam as uvas nestes lagares? 
Cremos que as uvas, após o corte, eram logo transportadas, muito provavelmente, em cestos de vime, para estes locais onde se procederia à sua pisa com os pés. Existem, também, os lagares de varas que permitiam uma prensagem mecânica muito mais eficaz que o recurso. 
De que época são? 
Aventuramo-nos, pelos dados que possuímos, a admitir que este tipo de estruturas terão sido construídas, em grande parte, no Período Alto-Medieval o que remete para a existência de uma actividade produtiva e transformadora com peso na economia local da época. No entanto, sabe-se da produção de vinho nesta região desde o Período Romano. Estão quase sempre associadas a necrópoles e zonas de povoamento medievais, indiciando um trabalho transformativo do produto no local onde o mesmo é produzido. 
Se dúvidas houvesse está explicado: Castelo de Vide, terra de vinhas, vides e vinho.

Lagariça na Maria Triga.

Lagariça em Roque Martão.
Sepultura na Maria Triga.
Sepultura na Maria Triga.

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