Como o N.C.V. já noticiou, no passado dia 31 o Zé Campos, José António Bugalho Campos de seu nome completo, cumpriu o inevitável ciclo de vida.
Cidadão exemplar que foi, com uma vida dedicada a Castelo de Vide, servindo as suas gentes quer no seu, bem conhecido, estabelecimento comercial onde se manteve até ao último dia da sua vida, quer cumprindo o seu dever de cidadania integrando, durante vários anos, os corpos sociais de instituições de utilidade pública da sua terra. Numa vila pequena como a nossa, e diferindo as nossas idades apenas em um ano, cedo nos encontrámos por aí. Recordo, desses tempos, as incursões que o Zé Campos fazia ao seu estabelecimento, melhor dizendo do seu pai, e da contra-loja surripiava uns maços de cigarros “Lucky Strike” que a malta “bajiava”, longe do olhar dos adultos, mas com o fascínio de experiência nova e proibida.
Frequentamos o externato de “Gonçalo Eanes” estabelecimento do ensino secundário que funcionou em Castelo de vide nos anos 55 e 56 do século passado. No dia 1º de Dezembro daquele último ano o “destacamento” da mocidade portuguesa do externato é transportado em camionete de caixa aberta, era já treino para o que iríamos vivenciar uma década à frente, a Portalegre para participar num desfile e parada.
Após as “forças” terem destroçado foram os do “Gonçalo Eanes” de Castelo de Vide à descoberta da capital do distrito, no final deste périplo o Zé Campos foi acometido de súbita e passageira indisposição, quando chegamos à avenida da Aramenha já estava, felizmente, restabelecido.
Na tal década à frente, mais propriamente em Setembro de 1967, o Zé Campos e eu tivemos um, inesperado mas reconfortante, reencontro nos confins da savana africana mais precisamente em Muembe, província do Niassa, Moçambique, o Campos já veterano naquele cenário de guerra eu “checa” acabado de chegar.
Em virtude da localização da minha residência, quando me desloco para o centro da vila passo à porta da “Casa Campos”, com frequência aí o encontrava em amena cavaqueira com amigos. Outras vezes entrava eu na loja para o cumprimentar ou comprar fosse o que fosse da enorme variedade de coisas que lá vendia em quantidades proporcionais às necessidades de cada um, presenciei, aí, a maneira paciente, delicada e bem humorada com que atendia os fregueses.
Quando lhe solicitava que me vendesse uns postais ilustrados, restos de coleção duma edição antiga com “cliché” Costa Pinto, nunca me os quis vender, sempre fez questão em me os oferecer. Uma vez, por outra convidava-me para conjuntamente com os seus amigos, aqueles que lhe guardavam a loja quando por qualquer motivo tinha que se ausentar, para um convívio enológico, essas tertúlias decorriam na contra-loja da sua casa comercial para onde entravamos, nessas ocasiões, diretamente por uma porta na rua dos Escudeiros.
José Campos foi um homem bom, todos vamos sentir a sua falta. A sua loja foi, e penso que poderá continuar a ser, um estabelecimento privado mas de inegável utilidade pública.
João Calha


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