Há muitos anos atrás, mas mesmo muitos, numa povoação nas faldas da serra de São Mamede uma mulher fazia pão - esse bíblico alimento - com as mãos metidas na massa separou uma porção a que juntou banha de porco, outros dois costumeiros ingredientes acrescentou, açúcar e canela que espalhou sobre a massa, meteu este preparado no forno, provou e soube-lhe bem, os cachopos, esses, até se lamberam.
Assim, se começou a confeccionar uma simples mas deliciosa iguaria.
A receita passou gerações e em Castelo de Vide chamam-lhe boleima.
Da escarpiada
Outra mulher, noutra povoação, entre a serra de Sicó e o rio Mondego também em tempos já remotos, também a confeccionar o sagrado alimento teve a mesma ideia da mulher alentejana, fazer um bolo com os mesmos ingredientes, só diferiram a gordura, neste caso usou azeite, e a maneira de adicionar o adoçante e a saborosa especiaria que foram seladas dentro da massa. Toda a sua família provou e gostou, a canalha chorou por mais, a mulher para a sossegar prometeu repetir a mesma receita na próxima amassadura. Estava inventada a escarpiada de Condeixa.
A escarpiada do padeiro Samuel
A Barreira era um lugar pouco populoso onde todos conheciam todos, daí os novos habitantes, que nós eramos, despertarem natural curiosidade, donde vínhamos, o que fazíamos, enfim o costume. Não tardou que o nosso padeiro solicitasse os préstimos do meu marido afim de observar um seu familiar. Volvidos uns dias, numa manhã o senhor Samuel, não se limitou a por o pão na bolsa, bateu também à nossa porta e ofereceu-nos uma travessa de bolos. Provámo-los e dissemos em uníssono -- sabem a boleima --, eram escarpiadas
A carta da gastrónoma e a boleima da D. Belmira
Nos finais dos anos noventa do século passado a D. Maria de Lurdes Modesto endereçou uma carta à minha sogra que, entretanto, já tinha falecido. Abrimos a carta na qual “a grande dama da cozinha tradicional portuguesa” relembrava a prestimosa colaboração que a D. Francisca Calha lhe tinha dado há uns anos atrás e, de novo lhe pedia os seus préstimos, desta vez para saber a receita das boleimas de Castelo de Vide.
Resolvi escrever à senhora comunicando-lhe o infortúnio e ao mesmo tempo pondo-me à disposição para lhe enviar a receita pretendida. Assim fiz e, mais do que isso, enviei-lhe uma boleima que encomendei à D. Belmira Chaves, que informada a que pessoa se destinava a confeccionou com redobrado esmero.
A consagrada gastrónoma ficou de tal modo agradecida e interessada que se deslocou a Castelo de Vide, acompanhada do renomado fotógrafo Nuno Calvet. A porta 31 da rua do Marmelo está encimada com toldo onde se lê “ casa Belmira bolos regionais”.
Foi por essa porta que aqueles dois ilustres visitantes entraram, lá dentro a afamada pasteleira, que empresta o nome ao estabelecimento, recebeu-os e proporcionou-lhes um privado “workshop” de confeção, não só de boleima mas também de outros bolos tradicionais.
Tudo a objetiva de Nuno Calvet registou (o resultado deste trabalho de recolha gastronómica pode ser consultado no livro “Festas e comeres do povo português” Mª Lurdes Modesto e outros). Foi, assim, mais um contributo para a divulgação do património gastronómico de Castelo de Vide particularmente da sua deliciosa e celebrada boleima.
Emília Calha




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