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30 de março de 2025

Carolina Janeiro, João Calha e Manuela Borges à frente dos destinos da ARPICV até 2028

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Carolina da Conceição Almeida Lourinho Janeiro, na Direção, João António Mergulhão Calha, na Assembleia Geral, e Manuela da Conceição Almeida Borges no Conselho Fiscal ficam à frente da ARPICV – Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos de Castelo de Vide até 2028 na sequência das eleições do passado dia 21 de Março (ver notícia AQUI).
Elenco completo da Direção
Na Direção, com Carolina Janeiro, foram eleitos Maria Inês Mendes Caldeira (vice-presidente), Amândio de Alegria Patacas (tesoureiro) e António Luís Pires (secretário); como vogais foram eleitos Alexandre Carlos Espadinha Gasparinho e Josefa Faustino Soares Fidalgo, sendo suplentes Maria de Alegria Glória Patacas e António Vaqueiro Bonacho.
Mesa da Assembleia Geral
Com João António Mergulhão Calha assumem a Assembleia Geral Acácio Manuel Braz das Neves Batista e Manuel de Fátima Laranjo (1º e 2º secretários), sendo suplentes Francisco da Pena Roque Carapeto e Maria Joana Margarido Roque.
Conselho Fiscal
No Conselho Fiscal Manuela da Conceição Almeida Borges tem Fernando Jorge da Silva Oliveira e Maria da Conceição Lourenço como 1º e 2º secretários e Maria do Céu Tapadinhas e Hermínia de Fátima Saldanha Andrade Nunes como suplentes. © NCV

23 de setembro de 2021

João Calha e Paulo Belo Costa apresentam amanhã o seu livro “O Dia das Emoções” às crianças do primeiro ciclo e do pré-escolar

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João Calha e Paulo Belo Costa apresentam amanhã, sexta-feira, 24 de Setembro, o seu livro “O Dia das Emoções” às crianças do primeiro ciclo e do pré-escolar do Agrupamento de Escolas de Castelo de Vide.
Segundo os autores, “O Dia das Emoções” é uma história que relata as várias emoções vividas por uma criança no seu dia a dia. 
A jornada de Eli
“Uma criança chamada Eli vive o seu dia a dia com várias emoções. Ao longo desta história vamos descobrindo o que Eli sente e que é normal sentir emoções diferentes". 
As ilustrações e as músicas que acompanham cada emoção (ver o vídeo junto) ajudam as crianças a conhecer e interpretar aquilo que sentem, no seu dia a dia, permitindo descobrir que é normal sentir emoções diferentes. 
Conhecer-se a si próprio
Conhecer-se a si próprio desde pequenino é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de pessoas emocionalmente inteligentes. O mundo das emoções das crianças é explicado e vivenciado de uma forma simples, numa história que poderá servir de ponto de partida para explorar o crescimento emocional.
"Esperamos que esta leitura e experiência musical contribuam para momentos de partilha emocional entre pais, educadores e crianças, no sentido da promoção da saúde mental de todos, num mundo tão desafiante como o de hoje em dia”. © NCV

26 de dezembro de 2018

Natal e comércio local

Foto © João Calha/NCV
Original e artística representação do presépio, rolhas de cortiça sobre placa de cortiça para isolamento, está patente junto à porta de entrada de um conhecido estabelecimento de restauração de Castelo de Vide. Para não passar a publicidade, que aliás o restaurante não necessita, pois são por demais conhecidas a confortável e intimista envolvência do espaço, a qualidade da sua culinária, bem como a selecionada carta de vinhos.
Apenas direi que se situa na rua de Santa Maria de Baixo.
Um bom Natal 
João Calha

12 de junho de 2018

Fotografia do médico João Calha premiada no concurso de fotografia da Casa do Alentejo 2018

“Por entre a bruma, lá se foi o comboio, ficou a memória”.
O médico otorrino e fotógrafo amador João António Mergulhão Calha, de Castelo de Vide, está hoje duplamente de parabéns. Pelo seu aniversário natalício (74 anos) e por ter sido premiado no concurso de fotografia 2018 da Casa do Alentejo intitulado: “Estações de Caminho-de-ferro e Apeadeiros Alentejanos” (ver notícia AQUI).
O seu trabalho intitulado “Por entre a bruma, lá se foi o comboio, ficou a memória”, obtida na Estação de CAstelo de Vide e que junto se publica, foi laureado com um terceiro prémio na categoria a preto e branco. 
João Calha foi assim um dos 3 únicos concorrentes galardoados num concurso em que, segundo o júri, “globalmente os trabalhos avaliados não corresponderam aos critérios de qualidade para o 1º prémio (fotografia a preto e branco) e para a categoria de fotografia a cores. O júri atribui apenas uma menção honrosa na categoria de fotografia a cores e um 2º e um 3º prémios na categoria de fotografia a preto e branco. © NCV

1 de junho de 2018

Esclarecimento de António José Miranda sobre a situação do Parque Infantil do Jardim Grande

Em relação com a fotonotícia hoje publicada sobre o Parque Infantil do Jardim Grande em Castelo de Vide (ver AQUI), recebemos do Vice-Presidente da Câmara Municipal António José Miranda o esclarecimento que a seguir publicamos na integra.
Tanto quanto o NCV conseguiu apurar factualmente a obra de “Beneficiação do Parque Infantil João José da Luz” foi alvo de abertura de procedimento por despacho de António Pita datado de 2 de Maio passado (ver AQUI), que aprovou noutro despacho do dia seguinte as “peças de procedimento” e indigitou Miguel Macedo como gestor do contrato (ver AQUI) e a minuta do contrato por despacho de dia 17 de Maio (ver AQUI). Desconhece-se ainda a data e o teor do despacho final de adjudicação e a mesma não consta ainda no portal “base-gov”. A Redação
Empresa "tem ainda 30 dias para o iníco da obra"(...) mas "esperamos que se inicie mais cedo"
“Ex. Sr. Diretor do Jornal Noticias de Castelo de Vide
Dr. Alexandre Cordeiro,
Enquanto Vice-Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide e Vereador responsável pelo pelouro da Educação, Ensino e Ciência, venho esclarecer os leitores em geral, e em particular o vosso colaborador e autor da foto publicada hoje, João Calha, que o procedimento processual do parque infantil, situado no Parque João José da Luz se encontra na fase final.
Infelizmente, os processos burocráticos a que as autarquias estão sujeitas, e o novo Código de Contratação Pública recentemente publicado, levou a um atraso maior do que aquele que esperávamos, pelo que o parque ainda se mantém encerrado.
A empresa CityCare, Manutenção do Espaço Urbano, Lda, tem ainda 30 dias para o início da obra, cujo valor é de 16346,70€, no entanto esperamos que se inicie mais cedo.
Também é nossa preocupação a celeridade do arranjo, mas mais importante ainda é a segurança das nossas crianças e a certificação do parque, cujos equipamentos já se apresentavam visivelmente gastos.
Felizmente para nós, Dia da Criança, são todos os dias do ano.
M. Cumprimentos
António José Chaves Miranda
Vice-Presidente”.

Castelo de Vide, Dia Mundial da Criança de 2018

Foto © João Calha/NCV
Mas as crianças de Castelo de Vide estão privadas – desde há 90 dias – de usufruir do seu parque infantil!
João Calha

26 de novembro de 2017

A porta treze da Carreira de Cima
e a visita ao património em Belver

Bela manhã de Outono, o senão é que não chove, a seca prolonga-se. São dez horas da manhã. Saio de casa com o propósito de ir à papelaria de Santa Filomena, não para comprar qualquer artigo dos que lá se vendem, mas o de inscrever o meu agregado familiar na visita ao património que o GACV tem agendada para o dia dezoito deste mês.
Chegado ao meu destino bato com o nariz na porta, lá voltei a meio da tarde, nada feito a porta da loja da “Fátinha” (assim a tratam os fregueses mais jovens) continuava fechada. Provavelmente qualquer motivo de força maior impediu-a de abrir. Vim depois a saber que a papelaria em questão esteve, nesse dia, em processo de deslocalização. Está agora ao dispor dos seus clientes no nº 13 da Carreira de Cima. Aí fui uns dias depois, ao franquear a porta de entrada veio-me à memória um cartaz com a fotografia do general Humberto Delgado o “general sem medo” que ali foi colocado por outro homem, também ele sem medo: José Maria Oliveira, assim era o seu nome, estabelecido naquele espaço com uma oficina de sapateiro e aluguer de bicicletas, decorria o ano de 1958, em período de campanha eleitoral para a presidência da república. 
Ainda em retrospetiva mas avançando umas décadas, no mesmo rés-do-chão se instalou o Sr. Manuel Joaquim Serra Conchinha com uma alfaiataria, (a fotografia que se publica, do saudoso mestre alfaiate empunhando a sua tesoura, é datada de Janeiro de 2009). 
Dia dezoito de Novembro outra bela manhã e chuva nem rasto dela. Acabam de ser ocupados os últimos lugares do autocarro, a presidente da direção do GACV Drª Maria do Carmo dá-nos as boas vindas. Cá vamos nós, aos cuidados do homem do volante senhor Pedro Tomé, até Belver. Primeira paragem no Gavião (de Abrantes como, por cá, dantes se dizia), para um café e satisfazer uma mais ou menos premente necessidade. 
Chegados ao nosso destino, apeamo-nos no largo Luiz de Camões onde a placa toponímica informa que o poeta aqui viveu no ano de 1547. Sem mais demoras a comitiva sobe a escadaria até ao castelo. O nosso cicerone, um jovem bem disposto, espera-nos para nos guiar na visita. Uma por outra informação complementar ou mais especializada é dada pelo arqueólogo e vice presidente do GACV Dr. Nelson Almeida. 
Entramos na capela de São Brás, frente ao retábulo a Drª Maria do Carmo recita um pai nosso em memória dos sócios do grupo de amigos que já nos deixaram, todos a acompanham na oração. 
Ponte de Belver a montante, barragem a jusante: é deslumbrante o panorama que se avista da torre de menagem. A glicerina já está a liquefazer em banho Maria, a Maria João acrescentou-lhe umas gotinhas de essência de morango e outras, poucas, de corante, verte esta mistura numas formas, é só deixar arrefecer, desenformar e temos um ecológico sabonete artesanal. Esta alquimia está a acontecer no interativo museu do sabão que “ recorda a Memória coletiva dos Saboeiros de Belver”. 
Vamos ao património gastronómico, que a barriga já está a dar horas, restaurante “O Castelo”, já estão postas duas mesas corridas para os que vieram de Castelo de Vide abancarem. Aperitivos e sopa vulgares, prato principal fritada de peixe do rio, lúcio-perca e barbo (o sável ainda anda em águas profundas no mar, só lá para Março chegará ao Tejo) acompanhada com acorda de ovas. Gostaria de ter umas papilas gustativas treinadas e sólidos conhecimentos de culinária como tem José Quitério aquele crítico de gastronomia que escrevia para o jornal “Expresso”. Mas não tenho, e assim mesmo confesso que peixe e acorda me souberam muito bem. Para sobremesa tigelada que também gostei. 
Ao sairmos do restaurante ficamos a contemplar um cato de grande altura que está num quintal mesmo em frente, uma moradora naquela rua informa-nos que aquela planta causa espanto aos forasteiros que por ali passam e é, por isso, muito fotografada, também nos diz que tem a particularidade de só florir de noite. Dou voltas à cabeça para me lembrar onde é que vi ou li caso semelhante. Ah! Já sei, a árvore triste, colóquio sexto “ Coloquio dos Simples…” de Garcia de Orta.
Para facilitar a digestão do almoço já vamos caminhando por uma estrada de terra batida, como que em romagem até à anta do Penedo Gordo. Lá chegados tivemos aula prática de arqueologia dada pelo arqueólogo Dr. Nelson Almeida, como já disse, nosso companheiro nesta visita ao património.
Próximo destino “Núcleo museológico das mantas e tapeçarias de Belver” somos esperados pela D. Olga que nos convida a entrar, começa por fazer um historial da fabrica de tecelagem centrado na figura da sua fundadora Natividade Nunes da Silva. De seguida um pequeno vídeo sobre o ciclo do linho. A curadora põe tal paixão e entusiasmo na sua exposição que nos predispõe para redobrado interesse e atenção para o que iremos ver de seguida. Dois teares de pedais num deles uma senhora vai tecendo um pano de linho, fio para cá fio para lá este por cima o outro por baixo assim se vão tecendo e perpetuando memórias.
Para finalizar “ um biscoito escaldado de honra” à beira Tejo na praia do Alamal. Ala que se faz tarde, aos seus lugares no autocarro rumo a Castelo de Vide. Invade-me uma tristeza por este passeio estar quase acabado mas… silencio que lá à frente o companheiro Soldado canta o fado. Já dentro do perímetro urbano da nossa vila, após ter contornado a rotunda da “Shell” o Paulo Tomé exprime a sua satisfação por nos trazer de volta a porto seguro e termino, precisamente, com palavras suas “às vezes não é preciso ir muito longe para ver algo que mereça a pena”.
Castelo de Vide, Novembro de 2017
João Calha

4 de junho de 2017

O que nos motiva a subir ao castelo nos dias da Festa da Senhora da Alegria?

Para os crentes na religião católica, o culto mariano, sem dúvida, patente nesta foto tirada em 2006 que mostra o encontro entre duas mulheres, vizinhas, protegida e protetora, filha e mãe, encontro saudado com o afeto de uma mão cheia de pétalas de rosa.
Para outros a componente convivial e recreativa da festa (não lhe chamo profana que é uma palavra um tanto agressiva), entre um copo, de vinho para os de mais idade ou de cerveja para os mais novos, e uma entremeada grelhada abrem-se espaços para animadas conversas. 
Acresce uma outra razão para irmos á festa da Senhora da Alegria, a de assistirmos à atuação dos artistas em cartaz. 
Foi este o meu propósito, ouvir e ver o concerto anunciado de um castelovidense que já músico feito mas ainda jovem rumou, um dia, até Lisboa para ingressar numa das mais conceituadas orquestras de sopro portuguesas a banda da GNR. Lá por aquela capital de maravilhas enamorou-se de uma Alice (os meus cumprimentos Dona Alice!). 
Bom vamos lá ao concerto do maestro Celestino Raposo. Quem é que ainda se lembra do filme “O Pequeno Rouxinol” com o Joselito? Pois o saxofonista abre o concerto com a canção daquele filme “La Campanera”. Outras músicas se seguiram mas devo dizer o fado “Rainha Santa” foi, em minha opinião, soberbamente interpretado; Carlos do Carmo ao cantar tal fado não desdenharia ser acompanhado ao saxofone soprano pelo artista que animou o início da noite do primeiro dia da festa de Nossa Senhora da Alegria em Castelo de Vide.
Bem haja maestro Celestino
João Calha
PS - Uma palavra de apreço para a organização desta festa, como em anos anteriores impecável.

31 de dezembro de 2016

João Calha: postal de bons anos

Domingos vai rompendo o denso nevoeiro, a um palmo do nariz tudo se esfuma a dois nada se enxerga, a samarra que leva vestida, com a gola de pele de raposa levantada, protege-o da friagem da noite, no bolso falso do lado esquerdo, o do lado do coração, vai o lindo postal que comprou na papelaria do senhor Augusto, onde escreveu os costumeiros versos. Na praça de D. Pedro V, onde caminha, os globos de iluminação pública lembram candeias em que o azeite se está a acabar, tal a cerração que os envolve. O relógio da torre dá os três quartos para a meia noite, falta um quarto de hora para o ano velho acabar, aquela música que ouve vem do clube dos ricos onde há grande função. A sua festa será amanhã na noite de ano bom, já se imagina com Florinda nos braços a dançar ao som da orquestra. Falta pouco para soarem as doze badaladas, quando chega à casa da destinatária do postal que, com tanto empenho, ali leva, detém-se um pouco frente à porta, que tem uma pincelada de cal fresca, sinal que já lá deitaram bons anos, meteu o postal pela fisga da porta onde dá uma pancada forte e pisga-se dali. Torna à sua casa deita-se, anseia pela noite de amanhã, essa sim é que irá ser uma grande noite.
Vestido com o seu fato novo, gravata com o alfinete de ouro posto, Domingos sobe as escadas da Sociedade Artística Popular onde está prestes as começar o baile, que a direção da instituição oferece aos seus associados e amigos, para comemorar a entrada do novo ano, o ano bom. Relanceia o salão de baile lá está Florinda, com a mãe um pouco atrás, mesmo ao lado do estrado da orquestra. A “troup jazz os Sintras”, o conjunto musical que vai abrilhantar o baile daquela noite, toca os primeiros acordes de uma marcha que abre a soirée dançante, Domingos em passo resoluto cruza o salão em diagonal abeira-se de Florinda fazendo uma discreta vénia, a mãe interpõe-se entre os dois e diz-lhe que filha já está comprometida, por uns instantes sente que o chão lhe foge, atónito, agora, por entre os pares que já rodopiam na sala, faz o percurso inverso. No bar tenta afogar a mágoa num cálice de anis, mas nada, aquilo está a doer demais. Espreita o salão de baile, Florinda dança nos braços de um outro, um tipo do concelho de Marvão, filho de um negociante do Porto da Espada. Domingos nada mais ali tem que fazer, sai para a noite fria sem rumo certo.
Os primeiros dias do mês de Janeiro, cinzentos e chuvosos enegrecem, ainda mais, o desgosto que atormenta Domingos. Faltam poucos dias para o dia quinze, dia de Santo Amaro em que tudo haverá de se esclarecer, assim foi, Domingos viu a rapariga e o tal fulano a passearem-se na feira, eram, sem dúvida, namorados. Já tinha tomado uma decisão, amanhã irá à Câmara dar o nome para a Marinha.
Florinda junta os postais de bons anos que recebeu, relê o que Domingos lhe escreveu, e guarda-os numa caixa de sapatos que coloca sobre o guarda vestidos.
Muitas lágrimas choradas pela mãe, mas nada demoveu Domingos que já tem guia de marcha para se apresentar no quartel da marinha em Vila Franca, deixa de ser alvanéu passa a segundo grumete recruta. Já arvorado em primeiro marinheiro irá navegar por longínquos oceanos e desembarcar em distantes portos.
Por cá os ventos não sopram de feição à rapariga, o que prometia vir a ser um auspicioso casamento transforma-se num rol de desassossegos e desgraças. Florinda engravida, o namorado ao receber a nova mostra-se frio e desinteressado, até que um dia desapareceu sem deixar rasto. Uma manhã o pai da infortunada rapariga sai à caça e volta morto, dizem uns por acidente com a espingarda, outros dizem que se matou por desgosto.
Florinda dá à luz uma menina a que deram o nome de Maria da Glória.
O comandante da fragata Afonso de Albuquerque baseada no porto de Mormugão dá ordem para que o navio levante ferro para enfrentar a poderosa força naval inimiga que se aproxima, o fogo do navio português atinge uma fragata da União Indiana que é logo rendida por outro vaso de guerra, o nosso navio começa a ser atingido pela artilharia da esquadra inimiga e envia para Lisboa a mensagem “estamos a ser atacados respondemos” um segundo ataque inimigo e dá-se uma violenta explosão no Afonso de Albuquerque, morre um marinheiro e o comandante português fica gravemente ferido, dá ordens para que o imediato assuma o comando do navio e que não se renda. O primeiro marinheiro Domingos bate-se, como toda a guarnição, com heroísmo, naquele inferno de rebentamentos e explosões vem-lhe à lembrança aquele dia de Santo Amaro em que decidiu alistar-se na marinha e a razão porque o fez, essa ferida já o tempo sarara, o tempo agora era rápido, marcante, de vida e morte.
Após a anexação das possessões portuguesas do Indico, houveram dias de incerteza quanto ao destino dos militares portugueses. Na primavera seguinte o jornal “Terra Alta” publica na primeira página a fotografia dos militares castelovidenses, que à época estavam na Índia, noticiando que estavam bem e já tinham embarcado com destino a Portugal. Florinda destaca essa página e guarda-a na mesma caixa de sapatos, onde anos antes tinha guardado os postais.
Domingos passa à disponibilidade e retoma a sua profissão de alvanéu na cidade de Almada, como era trabalhador, e competente na sua arte, funda uma pequena empresa de construção civil, constitui família, singra na vida.
Maria da Glória é enfermeira num hospital de Lisboa.
Tocam a finados, como por cá dizemos fazem sinais, duas badaladas foi um homem que se finou. Florinda pergunta a uma vizinha se sabe quem morreu -- que foi um homem cá da vila que morava em Almada que em novo foi militar na Índia. Florinda vai ao seu quarto, sobe, com dificuldade e contra as recomendações do médico que a tinha operado ao joelho, a uma cadeira e de cima do guarda vestidos retira uma velha e empoeirada caixa de sapatos, senta-se com ela na borda da cama: lá estão o postal de bons anos e a folha do jornal. Como teriam sido as suas vidas se, naquele baile na noite de ano bom, a sua mãe não se tivesse intrometido?
João Calha

30 de outubro de 2016

Sabor de Outono: a receita de marmelada de Natília Rosa Timóteo e a nossa

“… Era quando os dias começavam a nascer cinzentos e frescos e a avó tirava dos armários e baús de madeira carcomida as tigelas que, por força do uso, começavam a perder as cores e parte dos rebordos. Enquanto no fogão os pedaços de marmelo se fundiam com as toneladas de açúcar que Natília Rosa Timóteo, despejava sem falsas parcimónias nos panelões, as tigelas iam a lavar no tanque do quintal e, dois dias depois, resplandeciam em todas as janelas da casa e enchiam o vento daquele cheiro agridoce que assinalava o início da estação das folhas caídas.
Durante aqueles dois dias de magia culinária, o neto de Natília Rosa empoleirava-se nas cadeiras e arregaçava as mangas da camisa para ajudar ao descascar e partir os marmelos em quatro partes, que assim mandava a tradição familiar. Depois sentava-se no degrau das escadas que davam acesso ao telheiro e ficava a ver, quieto como um ouriço, enquanto a velha agitava a anca e transpirava para conseguir mexer os panelões com a grande colher de pau. Envolta numa espessa nuvem de vapor doce, Natília Rosa falava sem parar. Salustiano não tinha a certeza de que as palavras desencontradas da avó se lhe dirigissem, pelo que ficava calado no seu canto, temendo irritar aquela mulher severa e doce que lhe chamava “ meu melrinho”.
Quando a pasta acastanhada atingia finalmente o ponto desejado, Salustiano retomava a sua silenciosa colaboração, carregando para a mesa, uma a uma as tigelas da avó. De regresso, voltava a colocar os recipientes nas janelas, esforçando-se por alinhá-los o mais rectamente que as suas mãos eram capazes e guardando de memória o número de ordem de cada malga. No final, quando se preparava para rapar os restos que a avó já não conseguia extrair dos tachos, o pequeno enchia o peito para anunciar:
-- Cinquenta e seis tigelas. Mas a última não ia bem cheia…
Natília Rosa passava-lhe a mão pela cabeça e dizia a frase que Salustiano queria ouvir.
--Essa é para o meu melrinho, que ainda é pequeno….”
In “Portugués Guapo y Matador”, romance de Manuel Jorge Marmelo
Dezasseis tigelas de marmelada* mas todas bem cheias, foi quanto apuramos da laboriosa, e doce, transformação da nossa safra de marmelos este ano. Confecionámo-la um pouco mais tarde do que o habitual porque, lá para os lados da Amieira, a maturação desta fruta de princípio de Outono se atrasou, este ano, umas duas semanas dizem uns que foi a prolongada estiagem, outros que foi a falta de chuva na altura própria. Fosse lá pelo que fosse as tigelinhas com a tentadora e tradicional marmelada já estão guardadas em local arejado para não ganharem bolor. A preciosa iguaria irá durar até… Até que se gaste a última malga. Os doces caseiros ainda não pagam, por enquanto, imposto, mas é preciso consumi-los com parcimónia, não vá pagar-se o abuso do seu consumo desenfreado com uma indesejável subida da glicémia com as consequências nefastas que daí advêm para a nossa saúde, isso é que não . Como tudo na vida temperança é o que é preciso.
Segue-se um pequeno resumo fotográfico da nossa, da minha mulher e minha, receita de marmelada.
Poderá até acontecer que tenhamos oportunidade, de publicamente e aqui em Castelo de Vide, confrontar as nossa receitas de marmelada com a da avó do autor do romance do qual acima se trancreveu um excerto, perdão queria eu dizer da avó do personagem principal do romance Portugués Guapo y Matador. É que andam por aí rumores que o escritor portuense Manuel Jorge Marmelo poderá vir dentro em breve ao nosso convívio a convite do Grupo de Amigos de Castelo de Vide. Se assim for, cá o esperamos.
* marmelada 1-- doce feito de marmelo cozido em calda de açúcar e água, que é peneirado após o cozimento, adquirindo consistência pastosa.
6-- Troca de ternura ou intimidades amorosas
Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
É do primeiro significado que estamos a tratar, que não restem dúvidas. Pois de qual haveria de ser?

Outono de 2016


2 de maio de 2016

Rádio Portalegre:
Médico João Calha no programa Gentes da Gente

Gentes da Gente
O médico otorrinolaringologista castelovidense João Calha esteve na última edição do programa Gentes da Gente, na Rádio Portalegre. Foi no passado sábado dia 30 de Abril entre as 7 e as 9 horas.
João Calha falou da sua profissão, da fotografia e de seu pai Geraldo Calha, da sua paixão por Castelo de Vide e da passagem pela guerra colonial.
Para quem não teve oportunidade de ouvir o programa em direto, pode agora fazê-lo clicando no link acima ou alternativamente AQUI.
“Gravámos no Dia Mundial da Voz e vamos conhecer a importância deste dia”, referiu César Azeitona o radialista produtor do programa. © NCV

30 de abril de 2016

João Calha no “Gentes da Gente” da Rádio Portalegre

O médico otorrinolaringologista castelovidense João Calha vai estar na edição de hoje do programa Gentes da Gente, na Rádio Portalegre, entre as 7 e as 9 horas. 
João Calha fala da paixão por Castelo de Vide e a passagem pela guerra colonial. “Gravámos no Dia Mundial da Voz e vamos conhecer a importância deste dia”, refere César Azeitona o radialista produtor do programa. © NCV

27 de abril de 2016

João Calha no “Gentes da Gente”
no próximo sábado na Rádio Portalegre

O médico otorrinolaringologista castelovidense João Calha vai estar na próxima edição do programa Gentes da Gente, na Rádio Portalegre. No próximo sábado dia 30 de Abril entre as 7 e as 9 horas.
João Calha fala da paixão por Castelo de Vide e a passagem pela guerra colonial.
“Gravámos no Dia Mundial da Voz e vamos conhecer a importância deste dia”, refere César Azeitona o radialista produtor do programa. © NCV

20 de março de 2016

Fotografia de Domingo de Ramos

O pai de Maria da Alegria chegou à porta de São João. À arreata, traz, uma mula onde vem sentada a sua esposa e um burro que alomba com a filha.
Como, por ali, não houvesse um bataréu teve de ajudar a mulher a apear-se, a cachopa, essa, foi lesta a desmontar, o que surpreendeu o pai, mas não a mãe que bem entendeu aquela ligeireza, tinha pressa de chegar… 
O homem prendeu as montadas a uma argola na casa de um seu compadre, atravessaram o largo do Monte dos Sete em cadência rápida marcada pela filha. 
No largo do Ourives, como bons cristãos que eram, detiveram-se a ver passar a Procissão dos Ramos que celebra a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém. Tal como Maria da Alegria entrou hoje em Castelo de Vide, também Jesus Cristo tinha entrado na cidade santa montado num jerico, e nas duas circunstâncias as pessoas empunhavam ramos de oliveira e alecrim. Logo que a procissão passou a família separou-se. 

O chefe foi à taberna do Favas para acertar umas contas da venda de azeitona e molhar a garganta, pois vir a pé desde o Barregão até à vila dá sede, de mais a mais, sempre a ousiar a filha e a dele, a mula onde esta vinha era espantadiça, não fosse o diabo tece-las e a patroa enrolar o estojo. 
A mulher seguiu para as encruzilhadas a visitar uma tia que ultimamente não estava a passar bem. 
Maria da Alegria tinha encontro marcado com as outras raparigas do rancho de trabalhadoras agrícolas do monte da Lameira. Mas antes, haveria de ter um outro encontro, bem mais desejado, com o seu namorado que já a esperava encostado às grades do lajeado. Avistaram-se ao mesmo tempo, ele começou a descer as escadas para a praça de D. Pedro V, ela reparou no volume do seu vulto que até fazia proeminência no bolso esquerdo das calças, estava ansiosa, pela primeira vez ia receber esta dádiva com que os namorados presenteiam as namoradas no Domingo de Ramos. 
O namoro durava tanto como este tempo da Quaresma, tinha começado no baile de terça-feira de Carnaval, e o seu namorado, pelo que se estava a ver, iria deixa-la bem consolada. 
Assim foi, o rapaz tira do bolso das calças um papeluço que entrega a Maria da Alegria, que um tanto envergonhada aceita a oferta e vai ter com as companheiras. Encontrou-as, encantadas, frente à tenda do ourives a amiudar as peças de ouro expostas naqueles panos de veludo preto. 
Estavam, finalmente reunidas, só faltava o Zé Patacas, capataz daquele rancho, tinham combinado tirar, naquela manhã, uma fotografia no fotógrafo ambulante da feira. O Patacas chegou, mas não trazia boas notícias, o retratista não tinha vindo à feira, foi o desapontamento total no grupo. 
Para desanuviar a Maria da Alegria lá foi adoçando a boca das companheiras, serviram as amêndoas do vulto que tinha acabado de receber. Deram uma volta por ali a ver as barracas, na dos brinquedos o Zé Patacas comprou as feiras ao sobrinho Ângelo, uma corneta de barro, o cachopo soprava, soprava mas nada, da campânula de tal instrumento não saia qualquer som, estava visto, ainda não tinha embocadura para tal instrumento, optou-se por um pífaro pintadinho de branco com uns anéis verdes e encarnados e, assim ficou contente na mesma. 
Mas o capataz já a trazia fisgada e enfeirou, para ele, uma pequena mas bonita caixinha de cartão de cor verde com a gravura de uma minhota estampada e com os dizeres “fado português”, abre a caixa e dela retira uma reluzente gaita de trinta e duas vozes. Que maravilha! 
Estavam todas a apreciar a compra do Patacas quando Ana teve uma ideia que deu nova alma ao grupo, a de irem à rua de Alfândega, ao senhor Calha, tirar a fotografia, foi ele quem tirou as do seu casamento e bem bonitas ficaram.
Aquilo foi dito e feito, toca a subir o Montorinho até ao número oito da rua de Alfândega. Quando lá chegaram o senhor Calha que além de fotógrafo era também, e esta era a sua principal ocupação, funcionário dos C.T.T., estava ao telégrafo a expedir uns telegramas. 
Porque era Domingo a estação encerrava ao meio dia, já faltava pouco. Os relógios a deixar ver, no mostrador, só o ponteiro dos minutos na vertical a ocultar as doze, e todos sobem ao “estúdio”. As mais baixas à frente, o Ângelo ao colo da mãe, atrás as mais altas com o Zé Patacas quase no meio.
Iluminação ligada, atenção não se mexam, cinco segundos, contados mentalmente, entre o destapar e o tapar da objetiva. E pronto, aqui está a fotografia que ficou para a posteridade.
João Calha
Os meus agradecimentos para as senhoras, da rua mais genuína de Castelo de Vide, a da Costa: D. Benta Reis e D. Olívia Raposo, doravante mais pobres porque privadas do convívio da sua vizinha Catarina Busca que, há poucos dias, Deus chamou a si. Da mesma forma agradeço à D. Cesaltina Boto. (As senhoras aqui nomeadas são quatro das que, quando ainda jovens, posaram para esta foto no Domingo de Ramos de 1950).
Na outra fotografia vê-se o fotógrafo e funcionário dos C.T.T. a trabalhar, na valência da segunda letra da sigla, ou seja, no telegrafo.

1 de novembro de 2015

Dia de Todos os Santos de 2015

Abriram-se gavetões de cómodas, levantaram-se tampas e tabuleiros de arcas, de uns e de outras, saíram bolsas, as mais bonitas, algumas, autênticos e úteis “souvenirs” de Castelo de Vide. 
Isto porque hoje é o dia primeiro de Novembro.
Se até ao fim da manhã a campainha da nossa porta tocar, é muito provável que do lado de fora esteja um grupo de crianças empunhando essas artísticas bolsas, entoando a tradicional cantilena, a oferecer–nos uma manhã, menos monótona, mais colorida e alegre. Em troca apenas nos pedem os santinhos.
Dia de Todos os Santos de 2015
João Calha

17 de setembro de 2015

“Relatório pessoal de um passeio cultural”:
observação astronómica no Forte de São Roque
organizada pelo Grupo de Amigos

Batiam as nove badaladas no relógio da torre da câmara e já todos os participantes no passeio cultural, promovido pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide faziam um círculo entre a Casa do Morgado e a oficina museu Mestre Carolino Tapadejo.
A presidente da Direção do Grupo de Amigos, Maria do Carmo Alexandre, fez breves considerações sobre aquela associação, o programa daquela noite e a apresentou-nos os guias Nelson Almeida, arqueólogo de formação e Acácio Lobo, agrónomo de formação e astrónomo por paixão, à apresentação deste último todos demos uns passos para a frente ou para trás para melhor perscrutar o céu, mas nada, um, arreliador e uniforme, manto de nuvens altas não deixava ver uma estrela que fosse.
Logo ali o Acácio confirmou o que todos suspeitávamos, com aquelas condições atmosféricas não era possível qualquer observação astronómica. O grupo pôs-se em marcha subindo o que faltava da rua Nova para chegar à Carreira de Cima. Primeira paragem, frente ao “lajedo” o nosso arqueólogo falou-nos dos muitos habitantes de Castelo de Vide que no século XVIII em poucos dias ali foram sepultados por terem falecido com peste, infetados que foram por soldados de um exército de castelhanos e franceses que por aqui passou durante uma invasão a Portugal.
Prosseguimos pela rua principal afora, entramos no jardim grande, segunda paragem com o convento de São Francisco já ali em frente. O Nelson fala-nos, agora, das muralhas que cercavam a vila e de uma porta que ali perto existiu. Subimos pelo Calvário, sempre com a cintura muralhada à vista até que chegámos ao Largo de São Roque, aqui, virados para noroeste seguimos, com o olhar, a linha reta formada pela corredoura, que nos vai conduzir ao hegemónico torreão do castelo que, à noite, iluminado, ganha um aspeto mais majestoso.
O nosso “restaurador da história” fala-nos do Forte de São Roque. Como a minha infância tivesse passado por ali, testemunhei o encanto daquela singela festa do São Mamede que anualmente ali se fazia, em que bebíamos leite de cabra, recém-ordenhado dum rebanho que o cabreiro dum lavrador ali conduzia no dia da festa. De como aquele terreiro se transformava na “monumental de São Roque” onde residentes da vila e de localidades próximas mostravam as suas habilidades tauromáquicas e, não raras vezes, eram brindados pelas vacas e garraios com uma dolorosa sopa de corno. E aquelas “futeboladas” em que, ainda bem não, e involuntariamente, um avançado fazia um chapéu, não ao guarda-redes, mas ao muro do quintal da senhora Alexandrina. Esta, atenta guardiã da sua horta rapidamente repunha em jogo, já não a bola de borracha, mas as duas calotes esféricas que resultaram da perícia e fúria com que a golpeava. Desta maneira foram interrompidas algumas partidas sem direito a protesto, mas com alguns impropérios dirigidos, por parte dos jogadores, à senhora Alexandrina.
Franqueamos, então, a porta do forte passando de fronte da capela de São Roque e juntámo-nos perto do depósito da água, que outrora, fazia o abastecimento público a Castelo de Vide. Era naquele preciso local que estava previsto colocar o telescópio para fazermos, sob orientação do astrónomo as nossas observações, mas fosse Urano ou fosse lá quem fosse, correu, nessa noite, as persianas do quinhão de abóboda celeste que por cá nos cabe, para só as voltar a abrir no dia seguinte. O nosso assistente de astronomia ainda nos apontou a direção onde haveríamos de observar algumas constelações e mais nada pôde fazer. Sempre direi ao “nosso Galileu” adaptando um velho aforismo, sim, porque tudo se pode adaptar, que “há mais astros que astrónomos” e bem vistas as coisas, já faltará menos de um ano para a próxima edição do Astrovide.
Por fim o piquenique de iguarias locais: empadas, boleima, broas de mel, tudo do bom e do melhor. Como a noite estava a ficar fresca, digo mesmo fria, uma reconfortante “ginjinha” cuidadosamente acondicionada numa bonita e antiga garrafa do tempo de uma das avós do casal Candeias, Maria da Conceição e João Filomeno. Ainda uma autoapresentação dos participantes e finalmente o brinde da praxe a todos os presentes.
Castelo de Vide, a poucos dias do começo do Outono de 2015

João Calha

24 de maio de 2015

Cine-Teatro Mouzinho da Silveira:
a visita do bilheteiro na reserva...

O bilheteiro na reserva
voltou ao cine teatro de
Mouzinho da Silveira”.
Entrou, olhou
mas não encontrou
o postigo da bilheteira.
Senta-te aí João,
já não vais ficar fechado
naquele cubículo
que era tão acanhado.
Aí estás mais desafogado,
ficas quase de corpo inteiro.
Como a lotação está esgotada
não tens que fazer mais nada.
Rica vida que arranjaste
Sei que te custa estar quieto,
mas promete-me
que não vais cuspir fogo,
nem lotaria vender,
fazer barbas ?
Nem pensar.
Para onde estás a olhar?
Ah! Já percebi
não vês a lápide
que dantes estava ali
a do D. João da Câmara.
Uma coisa tens de saber,
as paredes querem-se
nuas,
mudas,
sem memória.
Pois, tens razão
mas esse é
o mais alto magistrado da nação.
Confia em quem sabe
destas coisas,
e de outras.
Deixa-te de saudosismos serôdios
Imaginário coletivo?
Onde é que foste buscar isso.
Também te quero avisa
Que ao entrares na plateia
também não vais dar com
o nome daquele médico
que nos foi tão dedicado
e, por nós, tão estimado,
que tão bem pintou e teatralizou
o estar e sentir da nossa gente.
E a do “ Alfageme de Santarém”
do Almeida Garrett
peça onde tanta gente entrou
Lembras-te?
Essa também se eclipsou.
Podes ficar descansado,
que apesar destes sumiços,
(ao que parece temporários),
soube dias
que tudo está a ser
contextualizado
reclassificado
conceptualizado
reposicionado
para ficar, de novo,
à vista de todos nós.
Vês João,
para quê tanta apreensão!

João Calha

7 de setembro de 2014

Passagem de testemunho

A cabeleireira Sofia vai cortando o cabelo a um freguês, sob o olhar atento
do barbeiro Semião que vai apresentando os clientes  e indicando as suas preferências. 
Andavam os da vila, os da Póvoa e até os do concelho de Marvão, estou-me a referir aos homens, já com grandes gafurinas e sem barbeiros que lhes valessem. Na barbearia verde o João Marmelo, o “Chinês”, cessou a sua atividade e constava-se que a do Semião tinha, há uns dias, a porta fechada. Apesar de eu ser careca, aqueles folículos pilosos localizados na nuca e nas têmporas, que teimosamente vão continuando funcionantes na cabeça dos calvos, no meu caso já tinham funcionado tempo demais sem serem desbastados, a tal ponto de ter sido por várias vezes instado pela minha mulher para ir cortar o cabelo. 
Saí de casa com rumo à rua Miguel Ferreira, a porta da barbearia do Semião estava, de facto, fechada. Fiquei por uns momentos ali especado. Eis senão quando, de uma janela lá do alto perguntam-me:
--João vens cortar o cabelo?
Respondi que sim.
-- A barbearia já não abre.
Questionei a minha interlocutora sobre a razão de tão inesperado encerramento. Disse-me ter sido por motivos de saúde do Semião. Agradeci a informação e encetei o percurso inverso. Logo ali às portas da loja do senhor Massena atualmente do Rolo encontrei um amigo, daqueles que considero fonte bem informada, a quem contei o sucedido, logo ali me disse, com aquele modo categórico com que às vezes fala, que a barbearia do Semião reabriria na próxima segunda-feira sob a gerência da empresa “Ana e Sofia cabeleireiros”. Assim foi.
A barbearia outrora do senhor Joaquim Garção onde aprenderam a arte o João Henrique e o Semião não fecha a porta, pelo menos, por agora. 
Só mais um apontamento sobre Joaquim Garção de alcunha o ”Acha Alfinetes”, homem que foi de vários ofícios, talentos e habilidades: barbeiro, caçador, criador de pássaros, amestrador de cães, fazedor de gaiolas e malas escolares (aquelas de madeira com uma pega na tampa) por último pintor. Muitos, por certo, ainda se lembrarão do “Acha Alfinetes” improvisar, ali no pelourinho, uma galeria de arte onde expunha os seus trabalhos pictóricos.
João Calha
Cortejo de oferendas que se organizou em Castelo de Vide no dia 1 de Novembro
 de 1955 lá vai o Sr. Joaquim Garção, mesmo à frente do r
ancho da Ribeira da Vide, com um dos seus cães amestrados.