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24 de junho de 2020

Ruy Ventura no jornal "Alto Alentejo":
“as igrejas de Castelo de Vide fazem falta"

Ruy Ventura decidiu publicar no “Alto Alentejo” um texto de esclarecimento e clarificação, tão longo quanto interessante, sobre a sua posição – assumida nas redes sociais – contrária à possível alienação da ermida de S. Miguel em Castelo de Vide que tinha sido noticiada pelo NCV e que o Conselho Económico Paroquial acabaria por “chumbar”.
Fê-lo na sequência de dois textos que haviam sido dados à estampa no jornal “Alto Alentejo” pelo Cónego Tarcísio Alves, pároco de Castelo de Vide em que foi diretamente criticado como sendo líder de um grupo de opositores àquela venda que aliás mereceu a “abstenção” do pároco em sede daquele Conselho.
Pelo seu inegável interesse, e por já ter publicado os que lhe deram azo, o NCV republica hoje na íntegra esse texto de Ruy Ventura respeitando literalmente o título que o autor lhe deu mas juntando-lhe – para além de fotos das igrejas referidas – um conjunto de subtítulos destinados a ajudar à sua leitura. © NCV
Castelo de Vide é uma terra afortunada. Ao contrário de outras localidades – que ainda hoje lamentam os desvarios e vandalismos do passado, causadores da destruição de tantos edifícios valiosos –, a terra de Salgueiro Maia detém no perímetro do seu concelho um património invejável seja sob que ponto de vista for. É, ainda, uma vila venturosa pelas gentes que nela habitam. Sem os castelo-videnses, teríamos no mesmo lugar do Alto Alentejo uma qualquer feia povoação, sem identidade e sem brilho, abastardada por uma sucessão de atentados urbanísticos e patrimoniais promovidos pelos seus habitantes e autorizados pelos serviços camarários. Felizmente, temos o contrário disso tudo – e essa realidade eleva a urbe aos olhos dos portugueses e dos estrangeiros.
Demolições não evitadas...
Entre as pessoas que dão vida a Castelo de Vide, há cidadãos de corpo inteiro que, ao longo do tempo, têm assumido a defesa do seu património. Se no passado não conseguiram evitar a demolição de uma parte das suas muralhas (e, nelas, a célebre “Porta da Aramenha”, proveniente da cidade romana de Ammaia), bem como de alguns edifícios religiosos, como a importante igreja do Espírito Santo ou a matriz antiga de Póvoa e Meadas, pode dizer-se que há uma linhagem de gente que não tem deixado destruir peças importantes da sua identidade artística e arquitectónica (popular ou erudita). Uns chegaram à investigação, à escrita e à publicação (César Videira, João António Gordo, Raposo Repenicado, Diamantino Sanches Trindade, Maria Guadalupe Alexandre, Diogo Salema Cordeiro, Jorge Rosa, Rosário Salema Carvalho, etc.); outros, mantendo-se mais ou menos na sombra, trabalharam de outro modo pela salvaguarda, valorização e divulgação do património da comunidade – que é parte integrante, diga-se, do património nacional. Nos últimos anos, merece especial relevo a actividade da associação denominada Grupo de Amigos de Castelo de Vide, que tem aliado a defesa dos interesses locais à edição de livros e à impressão do jornal “Notícias de Castelo de Vide”, também disponível na Internet sob a forma de blogue.
Se alguém pensa, por isto, que Castelo de Vide precisa de mim para “liderar” a defesa do seu património, decerto tem uma visão desfocada da realidade do concelho. Como investigador, é certo que assinei artigos na “Invenire – Revista de Bens Culturais da Igreja” (editada pela Conferência Episcopal Portuguesa) em que estudei obras de arte e tradições da vila onde nasceu Garcia de Orta; destaquei a localidade no meu livro “Santo António na Região de Portalegre”; publiquei artigos sobre as ruínas da ermida de São Paulo e sobre a igreja de Santa Maria da Devesa (com algumas novidades históricas); divulguei uma parte dos textos tradicionais do concelho em vários cadernos editados com a literatura oral da Serra de São Mamede; dei destaque à literatura castelo-vidense na volumosa antologia “Poetas e Escritores da Serra de São Mamede”; e, sobretudo, investiguei a toponímia, a heráldica, a história e o património do concelho no livro “A Vide e o seu Castelo”, obra hoje esgotada, a precisar de reedição revista e muito aumentada. Tal trabalho, que tenciono continuar (nomeadamente no doutoramento em História da Arte que me ocupará nos próximos quatro anos), não me transforma no entanto num elemento imprescindível na luta pela defesa do património concelhio, embora não lhe vire a cara, ao não esquecer que uma parte dos meus antepassados nasceu nesse município. Agradeço a honra que me foi concedida em duas publicações vindas a lume no jornal “Alto Alentejo”, nas quais surjo como “líder” de um grupo de pessoas de Castelo de Vide, mas não a mereço. Se manifestei o meu repúdio público pelas intenções do pároco viti-castrense e de mais algumas pessoas em vender a abandonada igreja de São Miguel (situada na Serra que já teve o nome do Comandante das Milícias Celestes e principal defensor da Igreja e do povo de Israel), limitei-me a fazer eco de uma notícia criada e difundida pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide no jornal que publica. Partilhei a notícia no “facebook” e comentei-a, dando o meu apoio aos castelo-videnses, estupefactos perante um incompreensível e pouco claro ataque ao seu património medieval. É certo que difundi a notícia e pus os meus fracos préstimos à disposição dos defensores do património local, mas nada fiz que outros não tivessem feito. O seu a seu dono…
Estratégia pastoral imaginativa, dialogante e aberta” 
já teria dado “utilidade comunitária” às Igrejas existentes
Há quem defenda publicamente que “as igrejas de Castelo de Vide não fazem falta”. Permito-me discordar. Fazem tanta falta quanto as muralhas de várias épocas que envolvem a vila, quanto o castelo que lhe deu nome, quanto as antas e outros vestígios arqueológicos que povoam o município, quanto o pelourinho que se ergue em frente aos Paços do Concelho, quanto muitas tradições seculares que dão identidade à urbe. Diria mesmo que, dado o seu estatuto, fazem até mais falta. Com o que digo, não estou a estabelecer uma hierarquia, mas apenas a dizer que uma estratégia pastoral imaginativa, dialogante e aberta já lhes teria dado utilidade comunitária além do seu valor patrimonial, pois se não há cultura sem culto, também não há culto sem cultura.
Igreja de São Miguel “não é uma ruína“
A igreja de São Miguel não está arruinada, como tem sido dito. Está apenas abandonada porque a abandonaram há várias dezenas de anos, entregando-a à sua sorte e às forças da natureza. Aconteceu o mesmo a outras ermidas castelo-videnses, o que se lamenta. Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida, associando-a talvez à ermida de Nossa Senhora da Penha, sua vizinha, que não tem espaço para lá se celebrar a eucaristia, nem no dia da festa, ou instalando aí um agrupamento de escuteiros ou… (os castelo-videnses saberão – e parece que a edilidade já está a dar bons passos no sentido de não se apagar esse património). Essa igreja, já existente no século XV, era local de encontro dos cristãos-novos na centúria de quinhentos, tendo assim um valor memorial inalienável. Com potencial arqueológico importante, ninguém nos garante que por debaixo da sua cal não haja surpresas. Não deve ser vista, todavia, como algo que se possa separar da sua envolvente, tanto próxima – onde avulta um entorno prodigioso do ponto de vista natural e paisagístico – quanto alargada.
“Não seria possível criar uma rota do sagrado”?
Pergunto: não seria possível criar uma rota do sagrado que envolvesse todos estes edifícios ainda de pé e mesmo aqueles de que já só sobram ruínas? Ou será melhor defender o que defendiam alguns cidadãos de Guimarães no século XIX, ao quererem demolir o castelo da cidade porque o “progresso” seria levantar ali um “bairro operário”?
Igrejas de “São Martinho” e “Senhora da Saúde” nunca existiram
É certo que em Castelo de Vide e no seu concelho nunca existiram igrejas dedicadas a São Martinho ou à Senhora da Saúde (como alguém escreveu), mas o valor memorial e patrimonial de igrejas e capelas como as que existem no concelho alentejano é algo que não pode ser desperdiçado seja por quem for. Desde uma igreja de Santiago (que investigadores internacionais já identificaram como uma antiga mesquita) à do Salvador do Mundo (anterior à nacionalidade e ligada ao cristianismo moçárabe), passando pelo Senhor do Bonfim (com um admirável conjunto de pinturas murais), ao Bom Jesus e à Senhora do Carmo (com retábulos que urge estudar, restaurar e divulgar, no âmbito da comunidade de artistas que existiu em Castelo de Vide nos séculos XVII e XVIII), a Santo Amaro (uma admirável igreja barroca!), às medievais São Roque e Santo Amador e a muitas outras, há um imenso conjunto de oportunidades a explorar – no âmbito de uma religiosidade aberta, de um turismo religioso e cultural e de uma estratégia inteligente de desenvolvimento local.
Fins distintos não serão menos dignos
É um erro pensar que as igrejas só merecem estar de pé enquanto lá se celebrar missa todos os domingos. Não foram construídas para isso. A maior parte delas, desde o dia da sua inauguração, só teve eucaristia uma vez por ano (ou no dia da sua festa ou no dia do sufrágio de quem lá estava enterrado, em geral os seus fundadores). A sua manutenção era assegurada por um ermitão, que aí vivia de graça e em troca de habitação gratuita tinha de assegurar a abertura de portas aos fiéis. Hoje em dia serão usadas de outro modo, com fins distintos. Não serão todavia menos dignos.
“Não há futuro sem passado”
Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado. É muito urgente dar valor a este e a outros patrimónios, sobretudo num tempo em que motivações espúrias querem “purificar” a nossa memória, derrubando e vandalizando estátuas e pessoas, levando-nos para a barbárie. Acredito que os negócios sejam sedutores, que a pressa de resolver situações seja má conselheira, que a imaginação nem sempre seja abundante, que pressões várias – nem sempre legítimas – façam esquecer o dever maior.
“Não é preciso reinventar a roda…“
Não é por acaso que o Direito Canónico afirma só ser válida a alienação “de ex-votos oferecidos à Igreja, ou de coisas preciosas em razão da arte ou da história” com licença expressa da Santa Sé, permitindo todavia que, além do culto, da piedade e da religião, o bispo diocesano permita nas igrejas “outros actos ou usos, que não sejam contrários à santidade do lugar”. Mesmo que as circunstâncias tenham levado à perda da bênção do local, é sempre possível dar-lhes um uso digno que respeite a sua integridade memorial, arquitectónica e artística. Há exemplos vários disso mesmo no Alentejo e no país, alguns bem perto. Não é preciso reinventar a roda…
O exemplo de S. Francisco de Assis...
Um dos primeiros actos de São Francisco depois da sua conversão foi promover nos arredores de Assis a reparação da igreja de São Damião, que ameaçava ruína e estava abandonada. Para isso, vendeu tudo o que tinha e, segundo contam as suas biografias medievais, chegou a andar pela sua terra a pedir pedras para a reconstrução, prometendo recompensas divinas. Nem todos podemos chegar ao exemplo maior dos santos, mas – como me disse um dia, era eu adolescente, o saudoso Cónego Justo, membro do Cabido da Sé de Portalegre – “se nem todos conseguimos ser santos, todos temos a obrigação de ser nobres e honrados”. Haja nobreza de carácter, honra e humildade e a situação das igrejas de Castelo de Vide será resolvida a pouco e pouco pelos castelo-videnses, pelas suas autoridades civis e por quem dirige a sua paróquia. Não me passa pela cabeça que venham a ter uma atitude menos digna. O Paráclito os espicaçará.
Ruy Ventura
(Texto datado de 15 de Junho de 2020, publicado no Jornal “Alto Alentejo”; título original (do autor) e subtítulos da responsabilidade doa redação do NCV)

10 de junho de 2020

Cónego Tarcísio Alves no “Alto Alentejo”:
“as igrejas de Castelo de Vide já não fazem falta”...

Cónego Tarcísio Alves.
“As igrejas de Castelo de Vide já não fazem falta” é o título de uma nota de opinião do pároco Cónego Tarcísio Alves publicada na edição desta semana do jornal “Alto Alentejo”. Nele lista as 18 igrejas ou lugares de culto que “ainda há” e republica a lista das que “já não existem” onde inclui as de “Nª Srª da Saúde” e a de “S. Martinho”.
A nota insiste na questão da eventual venda da capela ou ermida de S. Miguel, junto à Senhora da Penha, recentemente desaprovada pelo Conselho Económico Paroquial numa votação em que o próprio pároco no entanto se absteve (ver notícias AQUI).
“A comunidade cristã não precisa delas”...
Nesse texto o Cónego Tarcísio Alves argumenta que “algumas das 18 igrejas existentes provavelmente também irão desaparecer porque a comunidade cristã não precisa delas, nem suporta os seus encargos”. E adianta que “a Paróquia tem zelado pela limpeza dos telhados, das paredes, portas e janelas, mas não aguentará isto por muito tempo”.
“Só resta o abandono”
“Chegou a hora em que o conselho da paróquia tem de decidir: ou vende, com autorização superior, algum património da paróquia para acudir às despesas destas igrejas, ou terá de as abandonar, mas como há gente que se opõe à venda só resta o abandono”.
“Missão da Igreja é mais importante do que promover o turismo”
“A missão da Igreja é mais importante do que promover o turismo. A comunidade cristã não se considera guardiã ou vigilante da história nem da memória coletiva destas igrejas. Estas funções são próprias de outras instituições, embora a comunidade cristã colabore supletivamente”.
Finalmente a nota volta a atacar um “grupo de castelovidenses liderado por Ruy Ventura” que “não ponderou as consequências da sua decisão”, põe em dúvida alguns argumentos e ao qual insta a que “devia recuperar também todo o outro património de Castelo de Vide que está em perigo de desaparecer”. © NCV
Clicar na imagem para ampliar.

5 de junho de 2020

Câmara Municipal propõe-se recuperar a Ermida de S. Miguel e assumir exploração do terreno por 30 anos

Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)
A Câmara Municipal de Castelo de Vide, através do seu Presidente, estará a negociar um acordo tripartido visando a "exploração" do espaço onde se situa a Ermida de S. Miguel, junto à Senhora da Penha, tentando assim contribuir para a recuperação da igreja e colocar o espaço aos erviço da comunidade.
A notícia foi conhecida durante a reunão do Executivo Municipal da última quarta-feira e a proposta de acordo em negociação fará referência a um horizonte de 30 anos envolvendo, além do Município, a Fábrica da Igreja, dona do terreno e do imóvel da ermida e a própria Diocese de Portalegre e Castelo Branco e ainda a Direção Regional de Cultura do Alentejo.
Conselho Paroquial não aprovou a venda
Recorda-se que o Conselho Económico Paroquial não aprovou na sua mais recente reunião a venda do terreno na Serra de S. Paulo junto à Senhora da Penha onde está implantada esta Ermida de S. Miguel (ver notícia com todas as informações AQUI).
A decisão foi tomada a solicitação do Bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, apenas com um voto a favor e dois votos contra, com abstenção do pároco cónego Tarcísio Alves (ver notícia AQUI).
Custear pintura da Igreja (Matriz) de Castelo de Vide
O cónego Tarcísio Alves reagiu de imediato e fez publicar um texto no jornal "Alto Alentejo" (ver recorte que se publica junto) em que clarifica que o valor e a razão da venda seria o de custear a pintura da Igreja (Matriz) de Castelo de Vide, explica que "nem a paróquia nem a cãmara municipal levantaram dificuladades ao projeto" assim descrito: "restaurar parte da antiga capela" (...) "desde que lhe fosse autorizada a reconstrução da casa do ermitão, contígua à capela".
Aguarda-se parecer dos "serviços do Ministério da Cultura"
O Pároco responsabuiliza "um grupo de pessoas lideradas pelo sr. Ruy Ventura que se opôs tenazmente à alienação" e adianta que o Conselho Paroquial "achou por bem cancelar a alienação prevista e aguardar que os serviços do Ministério da Cultura se pronunciem sobre o assunto". 
Não é feita qualquer referência sobre uma eventual posição ou opinião da Comissão Diocesana dos Bens Culturais da Diocese que algumas fontes asseguraram ao NCV já existir. © NCV
Clicar na imagem para ampliar o recorte.

30 de maio de 2020

Última hora: Conselho Económico Paroquial não aprovou venda da Ermida de S. Miguel

Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)
Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)
Na sua reunião de ontem o Conselho Económico Paroquial não aprovou a venda do terreno na Serra de S. Paulo junto à Senhora da Penha onde está implantada a Ermida de S. Miguel (ver notícia com todas as informações AQUI).
A solicitação do Bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, a decisão foi tomada apenas com um voto a favor e dois votos contra, com abstenção do pároco cónego Tarcísio Alves.
Ermida ligada ao cripto-judaísmo castelo-vidense
Recorda-se que, de acordo com o estipulado  no cânone 1292 do Código do Direito Canónico, tratando-se de um bem com valor histórico, embora pobre de valor artístico, só pode ser alienado com o consentimento expresso da Santa Sé. 
Implantada num terreno de cerca de um hectare que pertence à Fábrica da Igreja, a Igreja de S. Miguel constitui uma das cinco igrejas de Castelo de Vide representadas por Duarte d' Armas, ligada ao cripto-judaísmo castelo-vidense e registando vestígios arqueológicos por debaixo do edificado. 
Necessidade de classificação
Especialistas contactados sobre este assunto pelo NCV referem a necessidade de se enveredar por um processo de classificação deste e de outros (muitos) ativos do património concelhio (religiosos e não só) que, neste momento e apesar do seu inegável interesse histórico, cultural e artístico, não estão devidamente protegidos e salvaguardados. 
Um caso muito concreto é o da própria Igreja deNossa Senhora da Penha. © NCV

28 de maio de 2020

Conselho Económico Paroquial decide amanhã sobre processo de venda da ermida medieval de São Miguel

Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)
Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)
Estará de novo em curso, segundo apurou o NCV, um processo de venda da ermida medieval de São Miguel, pero da Igreja de Nossa Senhora da Penha, na Serra de S. Paulo em Castelo de Vide.
O interesse será de um investidor estrangeiro que ali pretenderá construir uma vivenda, desconhecendo-se de momento se com salvaguarda daquele património de inegável valor histórico e cultural, mau grado um pobre valor artístico e apesar do estado de avançada degradação em que se encontram o interior e o exterior do edificado (as fotos que publicamos são de arquivo).
Reunião do Conselho Económico Paroquial
Realiza-se amanhã dia 29 de Maio uma reunião do Conselho Económico Paroquial a pedido do Bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco em que o assunto estará na agenda.
Recorda-se que a ermida e o terreno (com cerca de um hectare) em que está implantada, pertencentes à Fábrica da Igreja,  já estiveram em tempos à venda, por um valor de 60 mil euros, mas foi retirado por carecer de autorização episcopal e porque não avançou o projeto de construção da creche do Centro Paroquial de Assistência no terreno a ele destinado por detrás do Salão Jardim.
Ermida ligada ao cripto-judaísmo castelo-vidense
De acordo com o estipulado no cânone 1292 do Código do Direito Canónico, tratando-se de um bem com valor histórico, embora pobre de valor artístico, só pode ser alienado com o consentimento expresso da Santa Sé.
Ora segundo especialistas contactados pelo NCV, trata-se tão só de uma ermida medieval, uma das cinco igrejas de Castelo de Vide representadas por Duarte d' Armas, além de se registarem vestígios arqueológicos por debaixo do edificado e estar ligada ao cripto-judaísmo castelo-vidense.
Município pode optar e pedir classificação
Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)
Desconhece-se também qual será a posição que tomará a Câmara Municipal de Castelo de Vide que poderá exercer o direito de opção que lhe assiste e/ou promover um imediato pedido de classificação desta Igreja de S. Miguel junto da Direção-Geral do Património Cultural a fim de proteger cautelar e adequadamente este património medieval.
O Município de Castelo de Vide tem aliás devidamente inventariada e descrita esta Igreja de S. Miguel, como a seguir se transcreve.
Igreja de São Miguel

Não sabemos dizer com precisão quando foi fundada. Sabe-se, porém, por documento existente nos arquivos da Câmara com data de 8 de Abril de 1570 que nesse dia foi datado um "Tratado de dádiva da casa de São Miguel a Nossa Senhora da Penna, e da administração, e a sua mulher Margarida Pires, em vida de ambos por tal dádiva pertencer à Câmara desta Villa".
A igreja de S. Miguel fica situada para Sudeste de Castelo de Vide em local isolado. Esta igreja é constituída por um só volume que engloba a nave, capela-mor, sacristia e anexos que serviam de habitação ao ermitão.
A nave é retangular, o teto é de madeira de secção trapezoidal abatida. O arco triunfal que separa a nave da capela-mor é de volta perfeita e arranca de dois capitéis simples. Na parede Este existe um púlpito com balaustrada de finas colunas de madeira trabalhada.
A capela-mor é retangular, o pavimento de tijolos está um pouco sobre-elevado em relação ao da nave. O teto é de madeira e em secção trapezoidal. Na parede Sul está o altar com três nichos sem qualquer imagem.
 A fachada principal está voltada a Norte, tem empena triangular simples. Abrem-se quatro vãos: a porta principal, uma pequena fresta de iluminação da nave, à esquerda da porta há uma janela e do lado direito há uma porta ogival e que dá acesso à casa do ermitão. No telhado desta casa há uma chaminé de traça moderna”. © NCV
Foto © AMP Busca/NCV (arquivo)